Personal Experience at Rock in Rio
Eu vou tentar gravar esse vídeo até o final.
Bom,
ontem eu sofri um ataque a caminho do Rock in Rio.
Provavelmente vocês já devem ter visto aí na internet o vídeo que tá rolando.
É, na hora eu me senti muito acuado, me senti--
tava sentindo ali uma violência, mas
pra mim eu tava pensando muito na minha segurança
e eu queria acelerar o passo pra fugir daquela situação.
Não sabia o que podia acontecer, o que podia--
qual que era o próximo passo, né,
que aqueles garotos poderiam dar ali comigo.
Então eu
acelerei meu passo e tava com a cabeça focada em chegar no Rock in Rio, fazer a
entrega pra marca que eu precisava fazer.
Já era tarde, eram dez e pouco da noite, a hora que eu cheguei, porque eu trabalhei
o dia inteiro, saí do trabalho, né, da gravação e fui pro Rock in Rio
pra fazer essa entrega e o estande já ia fechar, então eu tava nervoso com isso.
Acabou que minha cabeça ficou concentrada naquilo e só quando eu cheguei em casa
depois de fazer essa entrega,
que eu fui sentir o que eu tinha vivido e entender que tinha se
tratado de uma
agressão e de um ataque homofóbico.
É,
eu tava dentro da grade do Rock in Rio.
Quando a gente desce do carro de aplicativo,
ele deixa a gente num lugar que
ele não pode acessar mais, né, de carro, e ali você entra numa grade e vai
seguindo um caminho, onde
eu achei que a gente estaria seguro, mas aparentemente a
gente não tá, em lugar nenhum.
Então, isso também é um alerta ao Rock in Rio.
Rock in Rio, por favor, vamo melhorar a segurança em volta.
Mas o que eu vim falar vai um pouco além.
No fim da noite, o garoto que
tava ali cabeceando a live, e cabeceando aquele vídeo, enfim,
postou um vídeo
de pedido de desculpas,
dizendo que ele tava falando sobre-- fazendo
entretenimento, que a live dele tava muito parada,
então ele tava ali fazendo uns
entretenimentos.
Eu sou um garoto que tenho trezentos mil seguidores no meu Instagram,
faço parte de uma das novelas mais legais, faço um personagem
que fala sobre isso, eu tenho visibilidade.
E
eu passei por isso.
E eu fico pensando, e me fere, quantas pessoas que
não têm essa visibilidade, quantas mulheres, quantos homens gays,
pessoas trans,
passam por isso e não têm essa visibilidade.
Que ninguém fala sobre
e é tudo em prol do entretenimento.
Esse garoto tem mais de cem mil seguidores no, no
Instagram.
São cem mil pessoas acompanhando esse tipo de entretenimento,
que viola, que machuca, que fere, que
abusa.
Então eu queria primeiramente dizer que eu tô bem,
que eu tenho uma rede de apoio muito boa, que me ajuda muito,
mas que isso não vai ficar pra trás.
Eu faço uma novela em que meu personagem fala sobre isso,
fala sobre
poder ser quem ele é sem sofrer nenhum preconceito, que
seja dentro de casa, da rua.
E é isso que a gente quer. A gente quer simplesmente poder andar
na rua.
Era exatamente o que eu tava fazendo, tava andando na rua.
Então eu vim aqui falar isso pra vocês, pra
dizer que isso não vai passar em branco.
É, a gente não pode deixar que isso passe em
branco.
Eu queria mobilizar todo mundo que eu puder,
pra que
a gente tente transformar um pouco esse país que a gente vive.
É muito dolorido pra mim
saber que eu sofri uma agressão como essa e me ver
vulnerável pro Brasil inteiro, né.
É, a gente não gosta de ficar vulnerável.
Mas além disso tudo, eu queria dizer que eu tô bem.
Queria agradecer todas as mensagens que eu tô recebendo.
Agradecer todo o cuidado, todo o carinho que eu tô recebendo.
E dizer que
a gente merece respeito,
e a gente merece poder viver.
Só viver, só poder andar, poder chegar dentro
dum festival, do maior festival do Brasil,
sem ser agredido.
É isso, gente.
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