Discussion on Beauty Standards and Experiences
Eu tava chorando, com o rímel tudo borrado aqui debaixo dos
zóio, andando na
Paulista, quando é fé pra um carrão daqueles caro,
que eu não sei nem falar o nome,
porque minha língua não droba. O motorista, a coisa mais linda da Terra,
virou pra
mim e disse: "A mocinha bonita tá
perdida?" Eu olhei pro lado, não
tinha ninguém. Eu pensei: "A mocinha bonita deve ser eu".
É palhaçada do-- do Silvio Santos, é pegadinha. Mas tem gente que come cocô.
Quem ama o feio, o bonito lhe parece.
Ele tornou a repetir: "A bela donzela tá perdida?" Aí eu já fui
mais sincera, já fui mais o povo. Eu falei:
"Eu tô muito desgostosinha da vida".
Ele olhou pra mim, minha filha, com aqueles olhos lindos de morrer e
disse: "Você quer mamar pra desestresser?" Aí eu
fiquei muito
brava. Eu olhei bem pra ele e disse: "Você não pode chegar em alguém
LGBT e fazer uma proposta dessa, porque você desumaniza a pessoa, você
objetifica". Ele respondeu: "Eu tenho vinte e três centímetros." Eu
rebati: "Não importa. Não importa.
Você abre essa porta do seu carro que eu vou conversar sério com você, pra que isso
não se repita mais, seu falocêntrico." Eu entrei no carro,
minha filha, e
mamei, mamei, mamei, mamei, mamei, mas com repúdio.
Uma mamada pra conscientização daquele homem.
Me leitou toda a boca, aquela leitada farta, leitada de grossa de
macho viril, autoerrada, que a gente problematiza,
mas a gente gosta.
Gente, eu gosto de falar a verdade e doa a quem
doer.
Eu terminei, ia abrir a porta, ele me tocou e disse: "Vem cá,
qual é o seu nome?" Eu respondi: "Morena Furacão.
Sou conhecida lá em São Bernardo e região.
Morena Furacão, muito prazer." Ele disse: "Eu gostei muito de você." É claro que
gostou. Eu dei uma chave de amígdala nele. Minha amígdala é hipertrófica.
Ele disse: "Quer ser minha namorada?" Na minha cabeça
só vinha um nome:
Valdeci, Valdeci, Valdeci. Eu não posso com aquela Valdeci.
O cara me vai aquele cabelo lindo de morrer, passa a mão na frente.
No braço, um Rolex. Falei: "Vamo conversar.
É coisa de se conversar." Gente, eu não tô brincando, não.
Tudo que eu tô falando com vocês é verdade.
Eu conto pra vocês porque a gente tem essa amizade autoerrada.
Fecha o olho e pensa. Pensa nesse homem que cê fala:
"Puta que meu Deus, como é
bonito". Pós-graduado, cabelo impecável, o nariz perfeito,
um metro e oitenta e cinco, o sorriso, o corpo dele.
Fecha o olho e pensa. O olho dele, gente, até a orelha dele é bonita.
Que homem mais lindo do mundo, Jesus Cristo. Cê tá imaginando ele?
Cê imaginou? Ele é branco? Então é por isso que eu estou fazendo o
vídeo de hoje.
Os nossos referenciais de beleza são brancos.
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