Threats Against Political Candidate Revealed

Quero ver o Renan morto. Morto. Por mim,

desde que ele esteja morto, eu tô feliz. Eu só quero esse cara morto. Demônio.

Capaz de eu sair como heroína ainda, que matei Adolf Hitler.

Uma ex-integrante do Movimento Brasil Livre, MBL, que chegou a ser

anunciada como pré-candidata a deputada federal pelo grupo,

conversou durante meses sobre a possibilidade de assassinar o

coordenador do MBL e candidato à presidência, Renan Santos.

"Eu quero ver o cara morto", diz a influenciadora Glenda Varotto,

conhecida como Espectro Cinza, numa gravação de áudio.

Quero ver o Renan morto.

O repórter André Shalders, da coluna Andreza Matais, teve acesso a um

conjunto de trezentos e setenta e oito arquivos sobre Glenda,

incluindo fotos, vídeos e principalmente gravações de

áudio coletados ao longo de meses.

Os arquivos contam uma história de paixão, desilusão e

vingança. Glenda diz a um confidente querer um

romance com Renan

Santos, que não a corresponde.

Não que me bem feito, eu destruí sua vida.

A partir daí, procura outros ex-integrantes rompidos com

o

MBL para planejar formas de causar irritação,

aborrecimento, ódio, vergonha, humilhação ao

presidenciável. Aos quarenta e dois anos, Renan disputa sua primeira

eleição este ano como candidato à presidência pelo Partido Missão.

A legenda criada por militantes do MBL obteve o registro no

TSE em novembro de 2025. Nas pesquisas mais

recentes, Renan aparece empatado em terceiro lugar

com o

candidato do Avante, Augusto Curi.

Natural de Carazinho, no Rio Grande do Sul,

Glenda se apresenta no Instagram

como palestrante, escritora e criadora do

conciliazionismo de gênero. Atualmente, ela tem cento e

oitenta mil seguidores na rede. Glenda se aproximou do MBL em

2024 e entrou oficialmente para o movimento no começo de

2025. Foi contratada para escrever artigos para

a revista cultural

do movimento, a Valete, e ganhava comissão por venda de

produtos. Ela rompeu com o grupo no fim de abril

deste ano.

A maioria dos arquivos foi produzida entre janeiro e agosto deste

ano por um amigo e ex-professor de inglês de Glenda.

Ele disse ter ficado preocupado com as menções frequentes à violência

física. Nas conversas também aparecem menções

constantes a

outros ex-integrantes do MBL, que romperam com o grupo e que hoje

são detratores.

E não é só eu. O Dem quer, a Mabel quer, o

Costenaro quer.

Em março deste ano, Gabriel Costenaro abordou Renan Santos

durante uma agenda de pré-campanha no centro do Rio de Janeiro.

Os dois trocaram insultos e empurrões.

Quando ainda era do MBL, Costenaro se envolveu numa confusão com o

deputado Glauber Braga, do PSOL do Rio de Janeiro, que o expulsou

aos chutes da Câmara dos Deputados.

Numa das conversas, Glenda chega a dizer que não ficaria muito

tempo

presa caso ela mesma matasse Renan, por ter curso

superior e ser branca.

Eu sou inteligente, as pessoas gostam de mim,

eu nunca fiz mal pra

uma mosca.

Capaz de eu sair como heroína ainda, que matei Adolf Hitler.

Procurada pela coluna, Glenda Varotto disse que deixou o

MBL em abril de 2026, após uma reunião

surpresa, na qual diz ter sido acusada de inúmeros

absurdos. Ela diz ainda que foi pressionada a

assinar documentos

para viabilizar uma saída pacífica do movimento.

Segundo ela, esse acordo não foi respeitado.

Após seu desligamento, dirigentes e apoiadores do

MBL passaram a atacá-la publicamente, diz ela.

Glenda alega ainda que foi alvo de acusações falsas e de

ataques coordenados para destruir a sua reputação.

Sobre os áudios, Glenda afirma que eram desabafos privados

feitos a um amigo em meio ao desgaste emocional causado pelo

conflito com o MBL. Ela sustenta que as falas foram

ditas, abre aspas, da boca pra fora, fecha aspas, e não

refletiam intenções reais. Abre aspas: "Esses

áudios são de um funcionário que comeu o pão que o diabo amassou no

local em que trabalhava, reclamando do ex-patrão com o melhor

amigo", fecha aspas. Novamente, abre aspas para ela:

"Se eu realmente tivesse um plano de atentar contra a vida de

alguém ou falasse seriamente qualquer uma das bobagens

ditas ali, a última coisa que faria sentido de fazer

é sair falando isso por aí para me comprometer", fecha

aspas.

Ao tomar conhecimento das gravações, Renan Santos apresentou uma notícia

crime contra Glenda Varotto. O pedido de providências foi

feito em 27 de agosto deste ano à Delegacia de Defesa

Social Institucional da Polícia Federal em São Paulo.

Nos áudios, Glenda confidencia para seu então

professor de inglês que queria

um relacionamento público com Renan Santos.

Ela conta que chegou a fazer um documento de conquista baseado no

filósofo e diplomata Nicolau Maquiavel, que viveu em Florença, na

Itália, entre 1469 e 1527.

Segundo ela própria, o documento tinha dicas de roupas,

acessórios, frases, simulações de diálogos e

respostas, com uma bela foto de Ana Bolena na capa.

Por exemplo, eu criei um documento,

juro, eu criei um documento de conquista,

de conquista romântica e amorosa pro Renan, baseado em Maquiavel.

A referência é a cortesã e ex-rainha consorte da Inglaterra,

que viveu entre 1501 e 1537, foi

pivô da separação de Henrique VIII de sua mulher anterior,

Catarina de Aragão. Em mensagens de abril deste ano,

Glenda conta ao professor de inglês que se sente rejeitada por Renan

Santos. Diz que ele a deixa no vácuo e que a

teria humilhado politicamente e profissionalmente.

Em outros trechos das conversas, Glenda venta a possibilidade de acusar

Renan Santos de nazismo Numa série de áudios de quinze de

junho, Glenda discorre sobre como prejudicar a

imagem de Renan

Santos com apoiadores da comunidade judaica.

Tá pensando em como fazer a relação da religião, do esoterismo

dele de Mitra, que é um deus de sacrifício,

com o Hitler ter feito o

mesmo sacrifício em relação aos judeus, porque, na verdade, o Hitler

só foi um homem incompreendido.

Renan, de fato, participou de um evento com a comunidade

judaica em

dez de agosto deste ano. Renan Santos tem nas costas uma tatuagem

de

Mitra sacrificando um touro. Segundo ele, a imagem não reflete

suas crenças religiosas. O candidato se batizou recentemente na

Igreja Católica. Num outro áudio do mesmo dia, Glenda diz

ter consciência de que estaria mentindo.

Porque eu tô disposta a mentir, né?

Em alguns áudios, Glenda menciona o youtuber Luiz Fernando

de Moura

Cagnin, o Nando Moura, como um aliado no plano de

vingança contra Renan Santos. Conhecido por se posicionar à

direita, Nando Moura manteve uma relação cordial

com o MBL até

2024, quando começaram as críticas mútuas.

Hoje, Moura é um dos principais críticos

públicos do movimento

dentro da direita. Numa de suas aulas de inglês,

Glenda menciona ao

professor uma live em que ela teria citado a suposta

relação de Renan e outros apoiadores do MBL com um

influenciador de extrema-direita dos Estados Unidos, que se

apresenta como The Palick Man. Segundo ela, a fala gerou um

problemão, mas, por outro lado, serviu para aproximá-la de Ben

Pontes, Costenaro, Lucas Pavanato e Nando Moura.

Em outra aula, o professor diz, em inglês, que Nando

Moura é um bom aliado para Glenda, mas é delirante.

He is a good ally, all right. He's the ally you have.

Let's work with him, all right.

Yeah, yeah, I understand.

But he's delusional. And I think, I think sometimes we have to be

delusional, because if we are not delusional, we give up, right?

O material recebido pela coluna inclui também a gravação de tela de uma

videochamada entre Glenda e três interlocutores

identificados como YNZ, Yehoshua

Dovid e William, na conversa datada de vinte de

agosto de 2026. Yehoshua diz fazer parte

do time do Nando. William, da chamada, é William Tavares,

outro ex-integrante do MBL. Yehoshua é Gustavo Aronso,

amigo de William Tavares. Em 2024, Tavares disse em

entrevista ao site The Intercept BR ter presenciado a

circulação de ideias racistas e eugenistas em

chats online do movimento.

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