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Reforma agrária. Em tempo de o agro é pop, essas palavras são o novo fantasma do comunismo.
Enquanto o agronegócio é exaltado como o motor do país, falar em mexer na forma como o nosso
meio rural é dividido parece coisa do passado. Mas será mesmo? Quando os portugueses chegaram
aqui, lá em 1500, eles começaram a distribuir as nossas terras para os amigos da coroa. Capitanias
hereditárias, césmarias. Você deve lembrar desses nomes das aulas de história, né? Foram todas as
pessoas que distribuíam enormes porções de terra para esses colonos. Isso criou uma divisão da
terra no Brasil extremamente desigual, em que poucas pessoas passaram a ter enormes propriedades e
transferir por herança para os seus descendentes. Essa divisão se perpetuou por séculos. Em 1850,
já com o Brasil independente, o Império criou a Lei de Terras, que definiu a compra e venda como
o único meio de se adquirir terra no Brasil. Mas adivinha só quem tinha dinheiro para adquirir
essas terras? Os mesmos herdeiros das césmarias e das capitanias hereditárias, afastando assim os
mais pobres, os imigrantes e os ex-escravizados. De lá para cá, o césmeiro virou latifundiário
e boa parte desses sobrenomes a gente conhece até hoje. Caiado, barbalho, ratinho. Hoje o Brasil é
o país com a maior desigualdade de terras do mundo. Só para ter uma ideia, as 10% maiores
propriedades rurais do Brasil ocupam sozinhas 73% da nossa área agrícola, enquanto todos os
outros 90% que sobram dividem apenas 27% do campo brasileiro. Pouca gente com muita terra e muita
gente com pouca ou nenhuma. Parece justo pra você? E aí que entra a Reforma Agrária. A Reforma
Agrária é uma política de redistribuição do campo. Diminuir a concentração em algumas poucas
pessoas e dar terra para quem não tem ou tem muito pouco poder produzir. Mas se engana quem pensa que
Reforma Agrária é só coisa de comunista. A maioria dos países capitalistas mais desenvolvidos do
mundo, como Estados Unidos, a França e o Japão, fizeram suas reformas agrárias, porque ela é um
meio essencial para modernizar e democratizar o campo. No Japão, por exemplo, a Reforma Agrária
foi patrocinada pelos Estados Unidos depois da guerra, tornou 90% dos agricultores produtores
da sua própria terra. Forçou latifundiários a venderem suas terras excedentes por um preço fixo
e limitou o tamanho das propriedades rurais. Mas você deve estar se perguntando, se o agronegócio
alimenta o Brasil, por que a gente precisa mexer nisso? Na verdade, desde os tempos da colônia,
a produção dessas grandes terras é voltada para exportação, para fora. Não à toa, essa turma
ficou doida quando o Trump anunciou que ia taxar as exportações brasileiras. Quem produz pelo
menos 70% do alimento que você consome na sua casa é a agricultura familiar, o pequeno produtor,
que não tem trator nem carrão, que não aparece na novela e nem no clipe do sertanejo, mas que
produz a maior parte do que você come. Enquanto para o grandão vender lá para fora não falta
ajuda do governo, o pequeno muitas vezes tem que se virar sozinho para fazer a comida chegar na
sua mesa. A estrutura fundiária arcaica do Brasil está na raiz da nossa desigualdade social e do
atraso do nosso país. A reforma agrária é justa para quem produz, saudável para quem consome e
boa para o Brasil. Só é ruim para quem há 500 anos ganha dinheiro às custas dessa desigualdade.
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